sábado, 16 de abril de 2011

Alvaro Luis. o plantador de Alface.

         Álvaro Luiz o plantador de Alface.

Nessa vida temos a certeza de que o nosso ponto de vista este sempre certo, principalmente quando impomos o nosso ponto de vista sobre o outro. O outro sempre é o culpado, o desgraçado o vagabundo o drogado o bêbado o pervertido e tudo o que podemos lhe classificar. Quase nunca olhamos para nós mesmo com esses adjetivos. E assim é mais fácil condenarmos o outro e se livrar de nossos próprios defeitos. É uma verdade que sabemos talvez desde sempre, mas nunca temos coragem de exerce. 
Eu conheci Álvaro Luís o plantador de alface que esfregou em minha cara essa verdade.
A alface que ele planta é um delicia muito bem cultivado, orgânico. Todos no bairro compram alface dele, e foi assim por doze anos. Comprávamos a alface dele, e Álvaro Luís sempre simpático e gentil passava por nossas ruas e casas e depois se ia para a sua chácara plantar mais alface. 
Até que em dado momento, Álvaro Luís não apareceu numa semana depois na outra e na seguinte. E claro como todos nós que o conhecíamos há muito tempo a preocupação nos tomou e inevitavelmente montamos uma equipe. Dirigimos-nos até a sua chácara. Especulamos que talvez ele tivesse viajado. Talvez doente.  Mas o que pretendíamos mesmo era ter uma resposta.
E lá fomos os três para a chácara.
Era uma chácara bem cuidada  a 17 quilômetros  distante da cidade.  E para surpresas nossa a casa da chácara era na verdade uma mansão. Piscina cercada de churrasqueira e jardim paisagístico. E numa garagem quatro carros importados e duas motos. Achamos ter entrado numa chácara errada. E foi quando encontramos a plantação de alface e a velha Kombi que Álvaro Luís nos entregava as alfaces. E nos perguntamos como era possível todo aquele luxo somente com alface?
Então vimos Álvaro Luís se aproximar. Vestia-se muito bem, roupa de grife. Anel de ouro, colar de ouro, Cabelo bem cortado. Álvaro Luís então sorriu, e nos convidou a entrar em sua mansão.
-Estávamos preocupados com você. Mas pelo que vejo aqui, não há muito que se preocupar. - Eu disse muito puto com aquela situação toda.
- E eu agradeço essa amizade. Essa preocupação. - disse Álvaro Luís.
- Mas porque esse luxo todo. E as alfaces? - Eu não me contive e perguntei.
- Ah! É uma historia muito interessante. Por favor, fiquem para o almoço que eu lhes contarei tudo. Agora posso confiar em vocês. Já que se preocuparam com o Álvaro Luís.
- Mas você não é Álvaro Luís.
- Sim e não. Meu caro Melquis!
Bem diante daquele enigma aceitamos almoçar. Então alguns empregados apareceram e começaram a preparar o almoço. E nos deslumbrados com a mansão, íamos vendo  as obras de arte. Móveis caros.  Enquanto Álvaro Luís contava a sua história.
Cantor popular na década de setenta, ganhou dinheiro muito dinheiro com canções melodiosas e shows intermináveis. Tinha o nome artístico de Eloy Matos. Quem nunca ouviu uma canção brega dele!   E ao invés de gastar dinheiro com mulheres e drogas. Investiu em construção civil, ações e montou um império. Tudo bem! Podíamos ver isso. Mas...
- E as alfaces! - eu perguntei.
- As alfaces! Bem, eu sempre quis vender alfaces. É algo que me dá prazer.
- Simplesmente isso!- perguntou o outro que estava com nós.
- Parece pouco. Mas quando fazemos o que gostamos mesmo que seja simplesmente vender alface, tudo  mais  o que viermos a fazer, não tenha duvida, faremos com maior prazer.
Calamos-nos. Almoçamos e passamos a tarde relembrando antigos sucessos de Eloy Matos ou Álvaro Luís. E como nos pediu, não ficamos espalhando pelo mundo a sua  vida. Contamos apenas para as nossas famílias e amigos e esses as seus amigos e familiares. E continuamos a comprar alfaces de Álvaro Luís. Até que um dia uma reportagem desses programas de tv popular descobriu Eloy Matos. Foi um fuzuê danado. A nossa rua ficou cheia de fãs e nunca mais comemos aquelas deliciosas alfaces. Álvaro Luís se mudou para algum lugar onde deve estar vendendo alface. Tomara que ele não tenha perdido esse prazer de vender Alfaces e espero que nos perdoei.
Mas valeu a lição de que se deve fazer o que se gosta nem que seja por prazer e simplesmente manter o prazer do outro em segredo.

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